terça-feira, 3 de janeiro de 2012

A DANÇA...



Não te amo como se fosse rosa de sal, topázio,
ou flecha de cravos que propagam o fogo :
Te amo como se ama coisas obscuras secretamente,
Entre a sombra e a alma....

Te amo como a planta que não floresce ,
E leva dentro de si, oculta, a luz daquelas flores ,
E graças a teu amor.. vive escuro em meu corpo
O apertado aroma que ascendeu da terra...

Te amo sem saber como, nem quando, nem onde ,
Te amo diretamente sem problemas nem orgulho...
Assim te amo porque não sei amar de outra maneira,

Se não assim desde modo em que não sou nem és...
Tão perto que a tua mão sobre meu peito é minha...
Tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho...

EU TE AMO...
E antes de amar-te amor,
Nada era meu...vacilei pelas ruas e as coisas...
Nada contava ou tinha nome...

O mundo era do ar que esperava,
e conheci salões cinzentos,
túneis habitados pela lua...
hangares cruéis em que se dependiam...

Perguntas que insistiam na areia,
Tudo estava vazio, morto, e mudo...
Caído, abandonado, decaído...
Tudo era inalienavelmente alheio..

Tudo era dos outros e de ninguém...
Até que tua beleza e tua pobreza ,
De dávidas encheram o outono...
E vi nascer de mim..
Folhas que não se secavam...


(Pablo Neruda)

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